Diferente do que o título pode sub-sugerir, Lincoln (EUA - 2012) não é uma cinebiografia do famoso presidente norte-americano, mas um recorte de sua vida, centrado no evento maior de sua participação na história daquela que viria a ser a "maior nação do século XX", segundo entendimento de alguns: a abolição da escravatura, via 13ª Emenda na Constituição.
A obra é consoante à filmografia de Spielberg, que tem um compromisso dividido entre seus prazeres cinéfilos, sua causa judaica e seu dever cívico.
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Diferente de suas grandes obras, onde a temática mais universal transcende as fronteiras dos EUA, aqui o assunto é mais doméstico, extremamente doméstico. Tão doméstico que boa parte do filme é a situação familiar que o núcleo Lincoln se encontra.
E é aí que seu discurso passa a ser universal.
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Sendo trabalhado dentro de um gabarito estético, as sutilezas e a verossimilhança dos diálogos - aliado ao fato de que todos os personagens tem uma frase de efeito, um quê de dizer algo que não seja indigesto ou etéreo - fazem das duas horas e meia um prazer intelectual, tangenciando de leve o elemento emocional, por vezes atrapalhada pela própria trilha sonora, supérflua e superdimensionada para um personagem tão caipira, tão humano, tão eu, tão você.
Indicado a: curiosos pela história da humanidade, políticos, socialistas, engajados sociais, humanistas, fãs do Spielberg mesmo em obras como Munique e Amistad.
Contra-indicado a: quem espera algo além do cinema "o cara era bem legal, pena que morre no final".
Para saber tudo: http://www.imdb.com/title/tt0443272
Blog pessoal sobre um interesse universal: histórias contadas e registradas em forma dramática, cinemática.
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
domingo, 20 de janeiro de 2013
O Tempo de Vida de um Chicle de Bola
Tem coisas que o cinema norte-americano faz, há muito tempo, que deveria fazer escola em outras escolas de cinema: o cine-chicle cheio de clichês.
Qual o tempo que um chicle de bola ocupa na sua boca? O mesmo tempo que deve durar seu entretenimento. E o resultado desse consumo? Além de não acrescentar grandes coisas biologicamente, não ter proteínas, carboidratos, ou quaisquer substâncias que realmente sejam substanciais ao seu organismo - na verdade faz um desserviço dentário e estimula a produção de suco gástrico sem necessidade - o que acontece é que você está exercitando a arte da mastigação, que será muito útil quando for consumir alimentos que... alimentem!
Me perdoem os especialistas da área biológica, mas essa metáfora me explica a "necessidade" de filmes como "O Último Desafio" (The Last Stand - 2013). Um baita exercício da arte de se contar histórias se utilizando do que há de correto na indústria audiovisual: bom elenco, grandes nomes, emergentes com talento, apuro técnico e - lema do entretenimento - divertido.
Num mix de Rota Suicida com Missão Impossível - às avessas - o desfile de clichês ao longo da previsível mas honorável aventura ganha quando não se leva a sério - fazendo isso de forma séria. A identificação com a passagem de tempo do último filme do astro principal (10 anos, sem contar uma participação especial com Jackie Chan há 9 anos), olhando para nós mesmos, é até um bônus para a contação da história, onde autoironia é a palavra-chave do dia.
Você não vai ganhar nada com os 107 min de exposição. Mas também não vai perder.
Ao se tratar de entretenimento, é importante lembrar que empatar tempo já é lucro.
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Se não acrescenta muito, entretém um bocado, e se anuncia como uma ante-sala dos próximos projetos do caricato herói de filmes de ação.
Ah sim: Rodrigo Santoro não atrapalha, mas também não ajuda muito, bem como seu personagem.
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Se não gostar de chicle de bola, vá de pipoca mesmo.
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Para saber as últimas: http://www.imdb.com/title/tt1549920/
Django com “D” Mudo – e Nada Mais.
Se gosto cinematográfico fosse uma democracia, eu seria voto
vencido na questão do prazer em se ver Django.
Um à parte maior que o todo: meu desafio, quando resolvo
compartilhar impressões e entendimentos cinematográficos, consiste em estar em
duas pontas distintas, simultaneamente, sempre que possível: 1 - estar imerso
sobre o universo proposto na tela (impressionismo) e 2 - analisar a obra sobre
o entendimento de quem cria, do autor e de sua proposta (lembrando que na maioria
das vezes um filme apresenta muitos autores).
Dito isso, estabelecido meu limite, assumo que é impossível,
para mim, analisar Django Unchained (2012) sem falar de seu autor – o que, de antemão,
faz com que a obra se posicione naquilo que eu chamo de “uma obra fraca”, que
busca atender a soberba de seu criador.
Aqui Tarantino faz seu filme mais Tarantino de todos,
basicamente uma auto-referência, um tributo autofágico, no seu propor da
estética-pela-estética. Paráfrases visuais e estruturas narrativas autorrecorrentes
ao longo das quase 3 curtas horas de projeção são um deleite àqueles que buscam
nada, absolutamente nada, além daquilo que já esperavam antes mesmo de ver a
obra.
O moto-contínuo “referência/tributo
+ historinha curiosa + violência + humor negro + referência/tributo + historinha curiosa + violência + humor
negro” segue em caravana, ininterruptamente, até o fim da fita.
Nunca Tarantino foi tão Tarantino, tão cópia de si próprio.
Nunca foi tão autoral de si mesmo em sua oca criatividade, tão rica em diálogos.
Tão talking heads.
E, ainda assim, divertido. Uma obra a serviço do entretenimento.
E um desserviço ao cinema enquanto alcunha de “Sétima Arte”.
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P.S.: Um filme, qualquer filme, merece, mais que tudo, ser
degustado o mais livre possível de quaisquer preconceito – inclusive livre de
trailers, no meu sonho utópico.
Tal qual um evento em nossas vidas.
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O que de bom Django traz para mim, finalmente? Poder me
observar e me entender mais na posição de quem busca, acima de tudo, uma boa
história.
Para saber tudo sobre: http://www.imdb.com/title/tt1853728/
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
E Tom Cruise Desistiu de Envelhecer
É IMPRESSIONANTE como alguns artistas como Tom Cruise
resolveram adquirir um quadro que com certeza está ficando muito velho e
acabado em algum quarto secreto de suas mansões! Chega a incomodar todo esse
exibicionismo em tela grande, ainda mais quando o filme trata de uma trama mais
inventiva e exige uma certa atenção mental, como um filme de investigação.
A história, baseada num livro (que prentendo adquirir) versa
sobre uma investigação acerca de um assassino à la atirador de elite e vai
se percebendo que há algo de podre a mais pelas cercanias...
Jackie Reacher, personagem que dá nome ao titulo do filme,
vem como um justiceiro, cavaleiro solitário, um ser à margem da sociedade.
Personagens dúbios, uma cinematografia impecável e tudo em
seu devido lugar permitem que o espectador faça a devida “imersão” no universo
diegético.
Filmes com tom detetivesco sempre tem seu charme. Não é
diferente aqui: todo o clima (principalmente os primeiros 5 minutos) mostra a
força do cinema. Mostra porque cinema é, antes de tudo, IMAGEM. Sem diálogos, a
força da montagem nos pega pela mão e nos arremessa diretamente para dentro do
evento, do ritual de um personagem.
E uma obra que nos transporta via imagens mostra QUEM de fato os personagens são, não quem eles DIZEM ser. As sutilezas que isso impõe sobre uma trama é a premissa de se ter uma história para contar; pois ou se conta uma história por ter PERSONAGENS interessantes, ou por ter um EVENTO interessante.
E aqui se tem dos dois!
Mas - pasme! - isso não seria suficiente para quem é fã do astro de
Hollywood. Infelizmente colocaram açúcar na coca-cola.
Clichês e lugares-comuns parecem ser uma imposição sobre
algumas obras – e aqui vem o meu lamento para quando isso acontece sobre um
filme que tem uma semente, uma premissa, uma razão-de-ser tão interessante
quanto “Jack Reacher - O Último Tiro” (Céus! Lamuriar sobre alguns títulos
abrasileirados é inevitável!)
Mais uma obra que o cinema americano mostra do que é capaz
tecnicamente, em sua precisão, tão imprecisa em nossa cinematografia nacional.
Mais uma obra que o cinema americano mostra não ter coragem de fazer do jeito certo: respeitando as motivações dos personagens, os moldando devido a uma necessidade estético-plástica.
...
A primeira meia hora do filme é deslumbrante (vale DOIS
ingressos).
A hora seguinte é MUITO BOA (vale a ida ao cinema).
A última meia hora... ah... acho que já vi isso antes...
(vale uma saída rápida para comprar mais pipoca).
Vou ver de novo no cinema, mas com certeza sairei com uma
hora de exibição.
E sairei muito satisfeito.
Indicado para: quem gosta de tiros, chutes, socos, suspense, ótima fotografia, excelente montagem, e quer dar um pau em quem é malandro. E quem quer ver o dorso nu e sarado do star.
Para saber tudo: http://www.imdb.com/title/tt0790724/
Avô Engraçado é Pai Que Não Deu Certo
Fiquei surpreso, comigo mesmo, ao perceber que nunca havia
visto um filme com Billy Crystal numa sala de cinema.
O comediante que me inspirou muito em “Mr. Saturday Night”,
“Amigos, Sempre Amigos” e – principalmente – “Harry e Sally”, dentre outras
obras, descobri que sempre me visitou em home video (nem na TV aberta eu devo ter assistido
a alguma obra com sua participação.)
Pois bem, foi com uma ansiedade benevolente que fui ver “Uma
Família em Apuros” (Parental Guidance - 2012).
As desventuras de um avô e uma avó que precisam passar uma
semana com seus netos, entrecortados por um drama familiar (entre pais &
filhos), faz dessa obra, que me atrevo a chamar de “comédia republicamericana”,
o todo a ser abordado.
Diz uma orientação para escritores e contadores de história
que “se queres ser universal, fala de sua aldeia”.
Curiosamente isso não
funciona muito bem aqui.
Desapegado da cultura interiorana norte-americana,
fica um pouco difícil absorver boa parte das piadas (essa coisa dos filhos irem
embora de casa assim que vão para a faculdade; a cultura do beisebol; os
compromissos morais e valores tão fora de moda em terras tropicais como a
nossa).
Você curte o Billy Crystal, como eu? Vai se divertir um
bocado.
Não curte aquela forma tradicional dele entregar as piadas
(sempre parece ter uma pausa ao final das piadas, como esperando as “claques”)?
Então vai se aborrecer desde o início do filme.
Mas espere! Bete Midler e Marisa Tomei encorpam o elenco – e valorizam e
equilibram o drama e o humor.
E as crianças são ótimas! Principalmente a primogênita, interpretada por Bailee Madison.
“Uma Família em Apuros”, de qualquer maneira, é o tipo de
filme que sempre deveria estar em cartaz – uma comédia leve, escapista,
descartável e aprazível, como uma caminhada no shopping (deveria
ter uma lei que obrigasse o circuito comercial a ter sempre um filme assim em cartaz).
Para se ver em tela de qualquer tamanho.
É mais do mesmo.
O que é bom.
O que é ruim.
Mas não decepciona, e entretém.
O que é ótimo.
Indicado para: quem também passa por apuros em família e sabe rir disso.
Para saber tudo: http://www.imdb.com/title/tt1047540/
domingo, 11 de novembro de 2012
Argo - uma Obra-Pronta
Photo by Courtesy Warner Bros. Entertainm – © 2012 Warner Bros. Entertainment Inc.
Hollywood fazendo o que de melhor Hollywood sabe fazer
O final de ano começa a apontar o primeiro grande filme a se posicionar junto aos festivais de cinema do início de 2013.
E começa bem. Começa Ben.
Affleck se firma, em definitivo, como um diretor que sabe o que quer, e sabe com quem contar para que sua visão tome a produção correta - contando com a ajuda de amigos. George Clooney não poupou esforços ou dinheiro para fazer esta obra tão atual e tão setentista.
Argo - Ano: 2012 - Direção Ben Affleck - Warner Bros.
Argo - Ano: 2012 - Direção Ben Affleck - Warner Bros.
A desventura deste grupo que fica preso em território inimigo, aguardando a salvação vir de fora, de alguma autoridade, é de um crescendo de suspense que se apoia numa narrativa dura e precisa, algo quase documental.
Algo não-onírico, mas ainda assim com cores de pesadelo.
A premissa "baseada em fatos reais" é uma parte do tripé que justifica se produzir um filme, se contar e recontar uma história (os outros dois alicerces são "adaptado da obra..." e "o mais original possível") e, como qualquer ótimo filme, deve-se assistir sabendo-se o mínimo possível.
Mas não estranhe se, ao final da projeção, você leve o filme para fora da sala de cinema, buscando trocar impressões sobre os sentimentos que o filme gerou - em quem assiste e nos personagens, todos reais, dentro e fora das telas.
Uma obra que esconde seus pontos fracos na sombra gigante de grandes emoções.
Uma obra para se ver em tela grande - a maior possível, por favor.
Photo by Courtesy Warner Bros. Entertainm – © 2012 Warner Bros. Entertainment Inc.
Ainda assim, se quiser saber tudo sobre: http://www.imdb.com/title/tt1024648/ e http://www.br.warnerbros.com/filme-warner/argo
sábado, 3 de novembro de 2012
Frankenweenie
It's Alive... Again!
Photo by Disney – © 2012 Disney Enterprises, Inc. All Rights Reserved.
Não tem como assistir uma obra assinada por Tim Burton livre
de qualquer expectativa. Realmente.
Pensado isso, afirmo convicto que "Frankenweenie" (2012) é uma obra como outra qualquer do cultuado
cineasta. "Como outra qualquer" não é desdém, mas recohecimento da
personalização visual que ele sempre aplica sobre suas leituras visuais e sonoras
em sua filmografia.
Como dissecar tão à parte essa peculiar obra de terror
infantil, sem se deixar contaminar por suas obras pregressas?
Ainda mais quando uma obra pregressa já era um original short live-action desta animação stop-motion?
Não tem como aplicar tamanha isonomia - mas isso faz parte de sua proposta artística, ainda mais tendo como
parte do público a classe adulta (mesmo sendo animação, a classificação indicativa é de 10 anos). Assumidamente Burton despeja num caldeirão todas
as referências sobre filmes-monstro que o influenciaram - a ele a várias
gerações.
E eis aí um nó de duas pontas, que constrói um belo laço
sobre a desventura de um cãozinho doméstico que tem a sorte de ter, como
proprietário, um garoto tão nerd, desesperado e genial a ponto de ter desenvolvido a ciência
de reanimar animais mortos.
O evento, que acontece após quase meia hora de filme, é o
ponto de partida para uma série de acontecimentos.
O Verbo e a Ciência abrem a Caixa de Pandora
Photo by Disney – © 2012 Disney Enterprises, Inc. All Rights Reserved.
O grande serviço que Frankenweenie presta - assim como todo
e qualquer grande filme - é de possibilitar uma camada de leitura mais
profunda, onde nosso profundo ser se depara com códigos universais. Aqui, no
caso, o que se deve morrer e o que se deve se manter vivo, no real ou nas
nossas memórias. A "verdade" como sendo instrumento do potencial mental, a "ciência" como instrumento de se aplacar uma dor, e o "imponderado", o "mistério",
quando se utiliza os dois instrumentos anteriores de forma inconsequente.
Frankenweenie é animação no formato mais clássico e artesanal possível.
É em preto-e-branco porque uma boa história não precisa de
muito mais do que isso.
É cinema por evocar emoções contando inverdades.
É Disney por conta do final feliz.
E fica o aviso para a turma entre 10 e 12 anos: é filme
de terror puro.
Behind the scenes (com uma câmera 360° que você faz o
enquadramento): http://frankenweenie.yb.nl/release/tim/index.html?language=br
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